Pular para o conteúdo
Mídia e MarketingHorário de Brasília: 29/10/2026 às 14:35

Geral

Como simular a transição e os diferentes momentos de pagamento e aproveitamento de créditos

A reforma tributária não chega de uma vez: ela se desdobra num calendário de sete anos em que débitos, créditos e preços mudam em momentos diferentes. Para empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real, planejar o caixa da transição começa por simular esse descompasso ainda em 2026

Mídia e Marketing

Trinity Consultoria Tributária

A reforma tributária não chega de uma vez: ela se desdobra num calendário de sete anos em que débitos, créditos e preços mudam em momentos diferentes. Para empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real, planejar o caixa da transição começa por simular esse descompasso ainda em 2026

A transição é um calendário, não uma data

Boa parte do debate público sobre a reforma tributária gira em torno de uma alíquota. Para o caixa de uma empresa, porém, o que pesa é o tempo. A Lei Complementar 214/2025 desenhou uma transição em degraus, e cada degrau altera o que se paga, quando se paga e quando se recupera.

Em 2026, o ano de teste, a CBS aparece nos documentos fiscais com alíquota de 0,9% e o IBS com 0,1%, valores que podem ser abatidos do PIS e da Cofins devidos no próprio recolhimento ou, se não houver saldo suficiente, ressarcidos. Em 1º de janeiro de 2027, PIS e Cofins são extintos e a CBS passa a ser cobrada integralmente; o IPI é zerado para a maior parte dos produtos e o IBS segue simbólico, em 0,1%, até 2028. Entre 2029 e 2032, ICMS e ISS são reduzidos gradualmente enquanto o IBS cresce na mesma proporção. Só em 2033 o sistema novo opera sozinho.

O percentual que inaugura essa sequência ainda nem foi fixado. O Tribunal de Contas da União tem até 30 de outubro para homologar o cálculo da alíquota de referência da CBS para 2027, e o Senado, até 15 de dezembro para aprová-la. Se o Senado não votar, valem provisoriamente os cálculos homologados pelo TCU. Projeções de mercado indicam algo próximo de 9%. Planejar o caixa de 2027, portanto, significa trabalhar com cenários, e não com um número.

“A empresa costuma perguntar quanto vai pagar a mais ou a menos. A pergunta que protege o caixa é outra: em que mês cada coisa acontece. A reforma pode ser neutra no ano e ainda assim apertar o caixa num trimestre específico”, observa Carlos Gago, CEO da Trinity Consultoria Tributária.

Três relógios dentro do mesmo caixa

Na prática, a transição põe três relógios para correr em paralelo dentro da tesouraria.

O primeiro é o do débito: o tributo devido sobre as vendas, apurado e recolhido conforme o calendário de cada tributo. Em 2027, para o Lucro Presumido, esse relógio muda de ritmo, porque a alíquota sobre a receita deixa de ser os 3,65% cumulativos de PIS e Cofins e passa a ser a da CBS no regime regular.

O segundo é o do crédito. No modelo não cumulativo da CBS, quase tudo o que a empresa compra para sua atividade gera crédito, mas o aproveitamento depende de condições: documento fiscal correto, tributo destacado e a extinção do débito na etapa anterior. Na compra de fornecedores que seguem no Simples Nacional pelo DAS, o crédito fica limitado ao valor recolhido dentro do Simples. Entre a compra e o crédito efetivamente disponível pode haver um intervalo, e esse intervalo é dinheiro parado.

O terceiro é o dos saldos. Quando os créditos superam os débitos, a empresa acumula saldo credor e depende dos prazos e procedimentos de ressarcimento previstos na lei. E há o estoque do sistema antigo: os créditos de PIS e Cofins existentes na virada continuam válidos e mantêm o prazo de cinco anos para uso, desde que estejam escriturados, pelo artigo 378 da LC 214/2025. Saldos credores de ICMS, mais adiante, seguem regras próprias de transição.

Simular é distribuir os efeitos no tempo

Uma simulação útil não é uma planilha com a alíquota nova aplicada sobre o faturamento do ano. É um fluxo de caixa mês a mês que trata separadamente cada um desses relógios, em pelo menos três cenários de alíquota.

O ponto de partida é a base real de 2026: receitas por tipo de cliente, compras por tipo de fornecedor, prazos médios de recebimento e de pagamento, créditos de PIS e Cofins em estoque. A partir dela, projeta-se 2027 em cada cenário, com débitos e créditos posicionados no mês em que de fato afetam o caixa, e não no mês da nota. O mesmo exercício se repete, com menor detalhe, para os anos de 2029 a 2033, quando a convivência de ICMS, ISS e IBS cria uma camada adicional de cálculo.

“Quando a gente coloca débito, crédito e saldo no mês certo, aparecem coisas que a média anual esconde. Um mês de compras concentradas, um cliente grande que paga em 90 dias, um estoque de crédito antigo que dá para usar antes. É aí que a simulação vira decisão”, explica Gago.

A revisão de preços entra no cronograma

O resultado mais prático da simulação é saber quando revisar preços, e não apenas quanto. A primeira data é óbvia: janeiro de 2027, com a CBS cheia. Mas, para a maioria das empresas, a decisão real acontece antes, na renovação dos contratos do fim de 2026, que vão vigorar sob a alíquota nova. As datas seguintes acompanham os degraus de 2029 a 2033.

Preços contratados sem separar o valor do tributo, ou sem cláusula de revisão quando a alíquota for fixada, transferem para o caixa a diferença entre o cenário imaginado e o real. Entre empresas privadas, não existe reequilíbrio automático: vale o que estiver escrito. Simular a transição antes de assinar é o que permite fixar no contrato o momento e o critério da próxima revisão.

O que a simulação não substitui

A simulação não substitui a contabilidade; depende dela. São os registros do contador que mostram o estoque de créditos, a composição de fornecedores e o histórico de prazos. Na Trinity, essa simulação é a primeira fase do trabalho consultivo, em formato de diagnóstico sem custo, feito junto com o contador da empresa e apoiado na ContadorIA, a ferramenta de raio-X tributário da consultoria.

“O contador é quem conhece a operação. O nosso papel é transformar o que ele já tem em um calendário de caixa da transição, com cenários, para que a empresa decida em 2026 o que vai sentir em 2027”, afirma Gago.

O exercício faz mais diferença para empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real com operação recorrente, prazos longos de recebimento ou volume relevante de créditos de PIS e Cofins em estoque. Para empresas que permanecerão no Simples Nacional, ou para operações muito simples, com poucos fornecedores e recebimento à vista, o ganho de uma simulação detalhada tende a ser menor.

Para as demais, o calendário já está correndo. A reforma vai ser explicada por anos a fio pela sua alíquota. O caixa de cada empresa, porém, vai senti-la mês a mês, e é nessa escala que o planejamento precisa começar.